BPT! entrevista Gram


  Após longos 7 anos em hiato, a banda paulistana Gram anunciou, em setembro de 2014, a retomada de suas atividades, fazendo a alegria de seus fãs, que durante anos apoiaram o projeto Volta Gram, um dos responsáveis pelo retorno do grupo. No mesmo mês, a banda lançou seu novo álbum, intitulado "Outro Seu", que marcou sua estreia pela Sony Music.
  Formado atualmente por José Ferraz (vocal/guitarra/violão), Marco Loschiavo (guitarra), Marcello Pagotto (baixo) e Fernando Falvo (bateria), o grupo vem divulgando o trabalho, e deu uma passadinha aqui pelo Bota Pra Tocar! para uma entrevista exclusiva.
  Confira abaixo nossa conversa com o vocalista Ferraz e o guitarrista Marco Loschiavo.

Bota Pra Tocar!: Bem vindos ao Bota Pra Tocar!, galera. É uma honra poder ter essa conversa com vocês. Vamos lá! No final de setembro do ano passado, após 7 anos em hiato, a Gram retomou suas atividades, já com um álbum novo praticamente pronto. Como foi a decisão de resgatar esse legado e há quanto tempo o retorno vinha sido trabalhado em segredo? 

Marco Loschiavo: Muito obrigado pelo convite. O súbito fim da banda foi algo que não foi programado e deixou um nó entalado na garganta dos remanescentes. Assim como o fim, a volta foi de repente, não foi algo muito planejado. O senso comum foi a enorme vontade de colocar aquela cozinha poderosa pra trabalhar de novo. Tudo se deu no período de um ano.

José Ferraz: O Marco, o Falvo, o Pagotto e o Ribalta decidiram voltar com o Gram e já vinham se encontrando antes mesmo de me conhecerem. Eles precisavam de alguém para assumir o vocal e foi ai que eu entrei.

BPT!: O que vocês fizeram nesses 7 anos afastados da banda?

Loschiavo: A gente sempre se esbarrou por aí. Cada um na sua, mas a amizade sempre existiu. Eu continuei trabalhando com animação gráfica, o Pagotto com produção e direção de vídeo, o Ribalta como diretor de arte e o Falvo como professor de bateria.

BPT!: A mudança mais comentada na nova formação do grupo é a entrada do vocalista Ferraz, ocupando a vaga de Sérgio Filho, que já declarou apoiar o retorno. Como o Ferraz se juntou ao grupo? E como tem sido a receptividade dos fãs nesses 6 meses?

Loschiavo: Tivemos duas mudanças, a do Sérgio, que decidiu não participar da volta, e a do Ribalta, que gravou com a gente mas pulou fora na hora de lançar, sabe lá Deus por que. A entrada do Ferraz foi quase que sobrenatural, de repente ele estava ali, cantando, compondo, interagindo... Conheci ele na DM9. A receptividade é muito boa, a maioria topou. Tem um povo que implica, mas é absolutamente natural.

Ferraz: Assim como o Marco comentou, foi tudo muito rápido. Conheci ele no meu trabalho e de repente já estávamos juntos compondo as músicas do novo disco, o "Outro Seu". O santo "bateu" e a afinidade musical foi instantânea. A partir disso conheci o Falvo e o Pagotto e começamos a ensaiar, dando início ao processo de retomada das atividades da banda. No geral a receptividade foi muito boa, tanto da crítica especializada quanto dos fãs, mas sempre tem algumas pessoas que não gostam e que adoram passar o dia se lamentando através de comentários no Facebook. O que me deixa confiante e feliz é ter o aval das três pessoas que realmente importam e fazem isso tudo acontecer: o Marco, o Falvo e o Pagotto. Isso eu tenho, e pra mim já basta.

Da esquerda para a direta: Marcello Pagotto (baixo) , Ferraz (vocal/guitarra/violão),  Fernando Falvo (bateria) e Marco Loschiavo (guitarra).

BPT!: O retorno do Gram foi marcado pelo lançamento de um álbum de inéditas, “Outro Seu” (2014), pela Sony Music. Como foi o processo de composição e produção do disco? De que maneira as novas músicas se assemelham e se distanciam das antigas?

Loschiavo: O processo de criação foi bem parecido com o passado. A gente começa a partir de melodias de guitarras ou de violão e voz. Cada um traz um pouco de casa e a gente potencializa no estúdio, geralmente duas vezes por semana. O que, na minha opinião, se assemelha com o trabalho antigo são os arranjos de baixo, batera e guitarra. O que distancia com certeza é o vocal e a ausência de piano. Quanto a energia e a abordagem estética das músicas nova, duvido que seria diferente se hoje a formação fosse a "clássica", a fonte sonora e inspiradora continuou a mesma, mas isso é impossível de se comparar.

Ferraz: O processo de composição e produção do disco durou cerca de um ano e foi ao mesmo tempo, prazeroso e rápido, deixando tudo muito excitante na medida em que as músicas estavam ansiosas pra nascer e tínhamos de dar conta disso até o dia marcado da gravação. Acho que isso reflete muito na sonoridade do disco, que, para mim, soa como um grito engasgado por sete anos de ausência da banda. Gravamos tudo em 7 dias e fechamos com a Sony Music logo depois, agora estamos colhendo esses frutos. A minha entrada na banda determinou algumas mudanças: obviamente no vocal, mas também nas temáticas das letras e nos arranjos das bases de guitarra. Isso se juntou ao poderoso "muro de Berlim" do Gram e resultou no peso desse novo disco.

BPT!: Algumas das novas músicas trazem releituras de instrumentais da coletânea "Riffs", do Marco Loschiavo, como por exemplo "Lotta Love", que resultou em "Sei", e "Fuck Yeah", que virou "Toda Dor do Mundo". Como surgiu a ideia de revisitar esse material para as novas composições?

Loschiavo: É parte desse processo, eu tenho essa mania de gravar esses "Riffs" e sempre joguei essas gravações na roda. Deu certo no passado e hoje.

Ferraz: Eu não conhecia esse material do Marco e quando ouvi pela primeira vez fiquei arrepiado. Como compositor, é um privilégio poder ter um guitarrista tão talentoso ao meu lado pra poder trabalhar nas canções. Tenho certeza que ainda vamos revisitar outras faixas desse trabalho pra criar novas músicas.

BPT!: O primeiro single de "Outro Seu" foi "Sem Saída", que recebeu um belo videoclipe dirigido por Marco e Renato Loschiavo. Vocês já tem alguma nova produção audiovisual em vista?

Loschiavo: Nosso novo clipe será de "Sei", em processo de concepção. 

  Assista abaixo o clipe de "Sem Saída".


BPT!: Os fãs da Gram com certeza têm suas músicas favoritas. E pra vocês, quais são as canções da banda das quais mais se orgulham, ou aquelas que mais gostam de tocar ao vivo?

Loschiavo: Pergunta difícil... Eu atualmente adoro "Sei", "Toda dor do Mundo", "Condição", "O Rei do Sol" e "Vale a Pena", mas no geral gosto de tudo.

Ferraz: Gosto de tocar todas as músicas novas. Participei da criação delas e me sinto mais parte da brincadeira. Muitas delas levam minhas letras e significam muito pra mim. Dessa leva destacaria "Condição" e "Sei". Das antigas, gosto muito de "Moonshine" e "O Rei do Sol".

BPT!: O Gram nasceu em 2002, e viveu em uma época em que canais como MTV e Multishow ditavam o que estava na moda ou não. Inclusive lançaram com esse primeiro o DVD/CD "MTV Apresenta" (2005), que garantiu um grande salto na popularidade do grupo. Em 2014, o Gram renasceu, em meio à bandas novas e numa década em que tais canais já não detêm tal missão. Como vocês vêm o cenário musical atual, e quais as principais diferenças em "começar" uma banda hoje em relação a 12 anos atrás?

Loschiavo: A gente deu muita sorte no passado, era aquela época em que as bandas de rock tinham uma oportunidade. Era só mandar o clipezinho pra MTV que eles passavam, e se seu trabalho fosse bom, você tocava, suas chances aumentavam. Hoje o negócio está capenga, muito mal das pernas... Fora algumas exceções, o mercado está cheio de contratantes amadores, muitas roubadas, pouco espaço pro rock. As bandas que dependem disso pra viver estão desesperadas, matando cachorro a grito, não querem interagir, também não querem papo com a gente. Acredito que tem a ver com a marcha ré que o nosso país vem dando nos últimos anos, o mercado de Cultura é um dos primeiros a sentir. Portanto decidimos, vamos tocar pra gente mesmo, vamos fazer shows em lugares pra pessoas que realmente queiram nos ouvir e vamos continuar compondo e gravando. A gente não depende da fama ou da pouca grana que a "cena" entrega. O Gram depende única e exclusivamente da própria música pra viver. Temos uma gravação agendada pra esse ano.

BPT!: Atualmente, a Internet é o principal meio de lançamento musical, tendo inclusive a venda digital ultrapassado a de mídias físicas nos últimos anos. Como vocês enxergam a importância desse meio para a difusão do som do grupo? E os lançamentos em formatos físicos, ainda são importantes para a disseminação da banda, ou acabaram se tornando apenas itens de colecionador?

Loschiavo: A gente deu outra sorte de ter sido convidado pela Sony pra distribuir nosso trabalho de forma digital. Foram mais 50.000 downloads do single de "Sem Saída" e uma penca de views no YouTube. É fundamental essa coisa digital, facilita, você não fica preso a nenhum formato, pode lançar EPs, singles... O CD ainda é importante, todo mundo que gosta da gente quer um CD com um autógrafo, a gente fez em formato de envelope, pra galera mesmo...

Ferraz: Tudo acontece na internet. É o nosso principal canal de divulgação e o que nos deixa sempre em contato com os fãs. É maravilhoso pensar que qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo, pode ter acesso ao seu trabalho e ficar familiarizado com você, com sua voz, e você não tem a mínima ideia de que isso está acontecendo. Quando você percebe, está no meio de um show e tem um monte de gente desconhecida cantando os versos que você escreveu no canto mais escuro do seu quarto. Em outras palavras: obrigado internet.

"Outro Seu" em mídia física.

BPT!: Outra mídia quem vem aumentando seu número de vendas com o passar dos anos é o clássico vinil, que são mais maleáveis do que os CDs e transformam as capas em verdadeiros quadros. Vocês são consumidores de tal mídia? E já pensaram em lançar algum álbum do Gram nesse formato?

Loschiavo: Eu sou um colecionador doente de rock underground brasileiro dos 70 pra trás e MPB obscuro. Vontade não falta.

BPT!: Vocês mantêm projetos paralelos à Gram? E como isso afeta as atividades da banda?

Loschiavo: A gente está sempre ciscando por aí. Eu continuo gravando minhas tranqueiras, o Falvo toca com a Roberta Campos, o Pagotto tem uma banda de Sublime que é foooooda... Isso ajuda a manter a engrenagem lubrificada.

BPT!: O que vocês andam botando pra tocar? Há alguma banda ou artista que gostarias de recomendar aos leitores?

Loschiavo: Cara, eu tô viciado em Ariel Pink, ele entrega sonoridade e visual freak e ao mesmo tempo melodias super inocentes e "populares". O Esteban Tavares tá fazendo um trabalho foda e o Martin Men acabou de lançar um disco cheio de coisa linda. Oasis é a maior banda do mundo de todos os tempos do universo.

Ferraz: Atualmente eu tô ouvindo muito Tame Impala e Jack White, que pra mim são os dois artistas que mais se destacam no cenário atual em termos de inovação, tanto na música quanto tudo que a circunda. No meio tempo revisito os clássicos da Motown dos anos 60 e 70, que são "atemporalmente deliciosos".

BPT!: Gostariam de deixar algum recado para os fãs da Gram e leitores do Bota Pra Tocar!?

Loschiavo: Pro pessoal que gosta do nosso trabalho, muito obrigado, continuem atentos, deixem a música falar por si. Afastem-se dos velhos, aproximem-se dos idosos.

Ferraz: A gente recebe dos fãs muitos pedidos de shows ao redor de todo o Brasil, mas não depende só da banda para que esses shows aconteçam. É preciso que os produtores locais criem condições adequadas pra que a gente possa ir de cidade a cidade levar nossas canções, e nossos fãs podem ter papel fundamental nisso. O pessoal pode se mobilizar através do queremos.com.br/gram e pedir o show do Gram em sua cidade. Isso alimenta o processo e faz com que a gente fique cada vez mais perto de tocar por ai.

BPT!: Galera, sem palavras! Prazer imensurável poder conversar com vocês, muito obrigado mesmo pela atenção!

Loschiavo: O prazer é nosso, obrigado por fazer esse trabalho cada vez mais escasso no país do PitBull, Mc sei lá o que, dupla de sertanejo e afins. Continuem visitando a Unidade de Terapia Intensiva do Rock que a gente sempre encontra alguma coisa bacana!  Contem com a gente. Obrigado!

Ferraz: É difícil achar entrevista com perguntas que você realmente tenha vontade de responder, mas vocês acertaram na mosca. Excelente pesquisa e dedicação. Estamos sempre a disposição. Obrigado!

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Instagram: instagram.com/gram_oficial

Entrevista realizada por Bruce Silva.
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