3 álbuns com Aletrix


  "3 álbuns com..." é a mais nova série do BPT!, onde convidaremos músicos dos mais diversos gêneros para listar 3 de seus álbuns preferidos e comentar sobre sua ligação com os trabalhos. O objetivo é ampliar e diversificar nossos catálogos musicais. Sem falar que é legal saber o que anda tocando nos ouvidos dos músicos que escutamos, né?!
  O músico e produtor paulista Aletrix é o novo convidado e montou três verdadeiras resenhas para a nossa série, com discos que tem botado pra tocar. Atualmente, Alê vem divulgando seu álbum de estreia, o ótimo "Herpes aos Hipsters", lançado entre o final de 2013 e o início de 2014, e planeja em seu sucessor, que deverá apresentar uma sonoridade ainda mais experimental.
  Confira abaixo a participação do Aletrix na "3 álbuns com...".

3 álbuns com Aletrix

  Olá olá, sou o Aletrix, lancei meu primeiro álbum em 2014 (o "Herpes aos Hipsters"), e apresento um programa de rádio chamado "De Carona Com Aletrix". Muito legal participar dessa sessão do Bota Pra Tocar!. Escolhi três discos que tenho ouvido ultimamente. "Another One", do Mac Demarco é o mais recente e os outros dois são discos que volto a visitar todo ano desde que os conheci. São álbuns que valem muito a pena botar pra tocar, conhecer ou ouvir de novo. Espero que curta!

Grant Lee Buffalo - Mighty Joe Moon [1994]

  O disco de estreia, "Fuzzy", já era muito distinto, mas o segundo, "Mighty Joe Moon", de 1994, mostrava o Grant Lee Buffalo ainda mais confiante, incorporando às composições instrumentos como banjo, dobro, mandolin e harmônio (que parece um órgão, mas sem tubos).
  É um daqueles discos que a cada ouvida traz algum detalhe, algum som novo, que não havia sido percebido antes.
  A textura folk choca com a distorção vinda do violão de 12 cordas do líder Grant Lee Philips, que já foi votado como 'Melhor Vocalista' pela Rolling Stone, e também um dos poucos músicos reconhecidos por habilidades com o violão de 12 cordas (ele raramente tocava guitarra na banda).
Ao vivo, curiosamente, o peso vinha mais da distorção do baixo. Essa era uma das várias cartas na manga que eles tinham para encorpar o som nos shows.
  "Mighty Joe Moon" abria com "Lone Star Song”, que faz alusão aos eventos então recentes conhecidos como Cerco de Waco, onde o FBI fez um cerco que durou 51 dias em volta da sede da seita O Ramo Davidiano. Foi um episódio que terminou em tragédia, com cerca de setenta pessoas mortas, entre elas várias crianças.
  O álbum tem forte dinâmica e alterna diferentes climas e temas. O lado mais acústico da banda é representado nas belíssimas "Happiness" (apesar do título, é a mais melancólica), "Rock of Ages", "Honey Don’t Think", e o lado mais explosivo em "Sing Along", "Drag" e "Demon Called Deception" (essa, sobre o Johnny Cash), além da própria "Lone Star Song".
  As letras, em tom perspicaz, referem a símbolos da imaginação social americana, seus mitos, enquanto citam fatos e nomes da história e do noticiário. Muhammad Ali e o audacioso Evel Knievel são lembrados, assim como John Wayne…Gacy.
  O baixista Paul Kimble era uma figura importante no estúdio e foi responsável pela engenharia e produção dos álbuns até o penúltimo da discografia deles. Sendo assim, além de tudo, o álbum passa certa sensação de Do It Yourself que o deixava ainda mais legal de ouvir. Soava honesto e absolutamente orgânico, tocado por humanos e possivelmente gravado sem qualquer intervenção digital. 
  Minha preferida é logo a segunda faixa, "Mockinbirds", a mais conhecida deles no Brasil, talvez também em outros lugares. Aqui, o clipe teve certa rotação na época do lançamento, foi assim que conheci a banda. "Mockinbirds" foi inspirada numa drama pessoal na vida do Grant Lee Philips, quando ele perdeu sua casa por conta do impacto de um terremoto. Ele conta que foi ao quintal com um violão, pra se distrair e esfriar a cabeça, e a música surgiu. Dois dias depois a gravou com a banda e poucos meses depois ela era o single, o carro chefe de "Mighty Joe Moon".
  Até hoje nunca enjoei dessa música, nem dessa história. Essa música, sozinha, certamente lhe rendeu pelo menos outra casa.

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Mac Demarco - Another One [2015]

  Esse é o meu lançamento preferido de 2015, sem dúvida. Um amigo ia ao show e me mandou um dos sons. Deixei pra ouvir depois e acabaram passando uns meses até ouvir "Another One". No mesmo dia repeti mais sete vezes a experiência, da primeira a última faixa, completamente incrédulo.   Era impossível não associar ao John Lennon solo, em vários aspectos, mas o que me chamou a atenção logo de cara foi uma guitarra que pelo timbre e efeitos lembrava as guitarras do Lulu Santos nos anos 80. Uma conexão altamente improvável, uma pincelada lo-fi cômica que deixou o disco ainda mais interessante.
  "Another One" é um mini-álbum com oito "baladas" e dura pouco mais que vinte minutos. Soa relaxado, no melhor dos sentidos, e nos últimos meses é um dos poucos que me parecem legais de ouvir a qualquer hora. Acho "The Way You’d Love Her" ou "No Other Heart", ótimas pra começar o dia, dão outro tom.
  Pesquisando a respeito, minha admiração aumentou ainda mais ao saber que eram gravações caseiras com o próprio Mac Demarco gravando e tocando todos os instrumentos. No entanto, a sonoridade não parece com a de um álbum caseiro, na verdade soa como se tivesse sido gravado em outra década.
  Também não soa como se um guitarrista estivesse se aventurando a tocar outros instrumentos. Pelas construções das linhas de baixo (detalhistas e melódicas), do teclado e a bateria, fica claro que cada instrumento foi abordado do ponto de vista de um multi-instrumentista. Ele lançou um vídeo tosco que mostra alguns trechos da gravação, é bastante divertido.
  O álbum termina com o músico contando seu endereço e convidando o ouvinte para visita-lo pra tomarem café, complementando o clima intimista criado e organizado pelo anfitrião Mac Demarco.

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Robyn Hitchcock & The Egyptians - Respect [1993]

  Robyn Hitchcock é um músico inglês, discípulo de Syd Barret e John Lennon, que mistura surrealismo com humor perverso e malicioso. Em seus quase quarenta anos de carreira, nada é convencional e três temas são os mais recorrentes: sexo, comida e morte.
  Sexo nos traz ao mundo, a comida nos mantém nele e a morte nos leva dele, algo nessa linha. Considerando a extensão de sua discografia é impressionante como ele consegue reaproveitar esses temas sem soar repetitivo.
  "Respect" é um álbum que ouvi pela primeira vez por volta de 2008 e desde então volto a visitar todo ano, como estou fazendo agora. São apenas dez músicas e é um álbum com um universo próprio, único, em termos de performance, letras e sonoridade.
  Foi lançado em 1993, é repleto de violões, climas e experimentos com instrumentos menos formais. Não teve grande destaque na época, nem depois, e é um álbum que vale muito conhecer, sobretudo pelas ideias.
  A faixa de abertura, "The Yip Song", é a mais animada e alegre, e fala sobre consentir com operações inúteis a fim de prolongar a vida de alguém por um curto período. Na época, o pai do Robyn Hitchcock estava bastante doente, prestes a morrer, e dá pra notar o impacto que isso teve neste disco e no seu lançamento seguinte.
  "When I Was Dead", é uma das minhas favoritas. Tem um instrumento percussivo que faz um som parecido com um chocalho e que na verdade é o baterista Morris Windsor chacoalhando um saco cheio de unhas de rato. A produção é propositalmente claustrofóbica, não há espaço sobrando. Num trecho, o diabo convida o morto (o próprio Robyn), para a ceia, mas pede que tome cuidado com as colheres. Deus diz "ah, ignore-o! Eu tenho todos os seus discos.". Robyn responde: "Sim, mas de quem são as músicas?".
  Imagino ser uma referência hilária a expressão "por que deveria o diabo ter as melhores músicas?", que religiosos antigos usavam para criticar compositores que compunham letras religiosas em cima de sucessos seculares.
  "The Moon Inside” tem uma analogia interessante. Robyn Hitchcock disse ser sobre paixão, e de como a vida na terra é conectada à Lua e suas passagens, no sentido de que temos elementos da Lua dentro de nós.
  A Lua influencia os movimentos do mar pela atração gravitacional e, nessa música, sentimentos inesperados podem surgir da mesma forma como o mar tem seus movimentos repentinos. Um sentimento imprevisível de paixão pode envolver de forma positiva e fascinante ou destruir, afogando às suas profundezas, exatamente como o mar.
  Como disse, nada é convencional para o Robyn Hitchcock. Ele é disposto a ir muito além do que a maioria dos compositores, sobretudo quando aborda um tema que já foi bastante explorado, como paixão.
  A faixa que mais ouvi quando conheci Respect era a "The Arms of Love”. Logo na introdução, e por toda música, tem um som mais atmosférico que eu imaginava ser de um teclado, mas mais tarde descobri que era o baixista Andy Metcalfe “tocando" taças de vinho, como em competições de talento. O R.E.M. chegou a gravar um cover, mas não ficou tão memorável quanto a original.
  O Manifesto Surrealista diz que a arte deve gravar os sonhos. Em Respect, Robyn Hitchcock & The Egyptians gravaram imagens angelicais e pesadelos com muito sucesso.
  Recentemente soube que é um disco que ele mesmo detesta, mas, junto com a coletânea de demos e outtakes "Mossy Liquor" e o ao vivo "Gotta Let This Hen Out!" (produção oitentista assombrosa), é um dos meus preferidos de toda sua carreira.
Infelizmente, o disco não se encontra disponível para audição. Ouça abaixo "When I Was Dead", uma de suas faixas.
Onde comprar? ~Indisponível~

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  Gostaram das indicações do Aletrix? Deixem seus comentários, e continuem ligados aqui no Bota Pra Tocar! para as novas indicações da série "3 álbuns com...". Vocês podem se surpreender com o que vem por ai, e  acabar descobrindo uma nova banda preferida!
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