3 álbuns com Ian Fonseca (Supercolisor)


  "3 álbuns com..." é a mais nova série do BPT!, onde convidaremos músicos dos mais diversos gêneros para listar 3 de seus álbuns preferidos e comentar sobre sua ligação com os trabalhos. O objetivo é ampliar e diversificar nossos catálogos musicais. Sem falar que é legal saber o que anda tocando nos ouvidos dos músicos que escutamos, né?!
  Para enriquecer ainda mais a série, quem trouxe três discos que marcaram sua relação com a música foi o músico Ian Fonseca, vocalista, pianista e letrista da banda Supercolisor, formada em Manaus, em 2008, sob o nome Malbec. O grupo lançou no mês de maio deste ano seu segundo álbum de estúdio, o "Zen Total do Ocidente", que firma a mudança que concretizou seu formato atual e definitivo.
  Confira abaixo a participação de Ian Fonseca na "3 álbuns com...".

3 álbuns com Ian Fonseca (Supercolisor)

  É sempre divertido e oportuno receber um convite pra falar sobre o meu assunto preferido! Obrigado a toda a equipe por lembrarem do Supercolisor. Aqui somos quatro ratinhos operadores de sons e é raro (e passageiro) nos cansarmos da função.
  Livrando-me da pressão de comentar uma lista de discos favoritos – fosse eu capaz de elaborar uma coisa dessas – divido aqui uns centavos a respeito de três dos que eu entendo que mudaram a minha relação com a música.

Radiohead - In Rainbows [2007]

  Longe de ser o meu preferido da banda, o  do Radiohead, posso dizer com firmeza, foi o disco que me fez perceber que era mesmo música o que eu queria fazer da vida e por isso sobre ele vou me permitir mais linhas. 
  O disco foi lançado em 2007 enquanto eu cursava duas faculdades distintas e simultâneas em Manaus e me acompanhou com exclusividade por meses nas viagens de carro antes, entre e depois dos compromissos diários (quando não durante!). O fato é que, como é notório, ele surgiu na minha vida num momento determinante de guinada das minhas aspirações. Eu tinha acabado de deixar uma banda relativamente bem-sucedida na cidade, na qual entrei muito novo e da qual participei por anos, o Mezatrio, e, embora tivesse profunda vontade de me dedicar exclusivamente à música, sabia do valor da garantia que só o estudo poderia prover. Ainda assim, foi este disco que deixou claro na minha cabeça que eu precisava tratar logo de terminar aqueles cursos pra despejar o meu tempo em algo que me satisfizesse, e foi isso que fiz sem demora.
  Sobre o álbum, o que me toca a seu respeito é o contexto do qual ele nasceu e a (para mim) inesperada qualidade que ele traz consigo. Vou explicar para não correr o risco de deixar inequívoco o fato de que jamais esperaria um disco ruim do Radiohead: fui e ainda sou o mais fanático admirador da banda de que tenho notícia e, àquela altura, depois de ter no decorrer dos anos conhecido e me apaixonado em sequência ininterrupta por "The Bends" [1995], "OK Computer" [1997], "Kid A" [2000], "Amnesiac" [2001] e "Hail to the Thief" [2003], a espera de quatro anos por um novo álbum somada à (bela) confusão estética que eu considerava este último que citei deixaram as minhas expectativas baixas. Achava que finalmente o Radiohead, depois de um tiro extraordinário de cinco discos marcantes seguidos, podia descansar da obrigação de ser original, expansível, desafiador. A essa altura também já tinha me rendido ao Wilco, e neles depositava esperanças com mais atenção, já que para eles o período 2000-2006 foi especialmente prolífico e exuberante. E aí este disco caiu como uma bomba na minha vida, porque compila em dez faixas grande parte dos motivos pelos quais essa é a minha banda moderna favorita. Pra mim foi e ainda é inacreditável ouvir coisas como "15 Steps", "Weird Fishes/Arpeggi", "All I Need" e todas aquelas maravilhas vindas de uma banda que já tinha dado a mim muitos dos meus discos mais queridos. Gosto demais do fato do álbum ter canções radicalmente diversas entre si e ainda assim soar como uma unidade mais inteiriça do que a mera soma de suas partes e poderia listar mais uma dezena de elogios que não julgo necessários já que o leitor, se concordar comigo, vai sugeri-los sozinho quando decidir ouvi-lo de novo ou pela primeira vez. No caso deste último, deixo aqui explícita a minha inveja.
  Já que sobre este não fui breve, aqui a tentativa de resumir num parágrafo o que quero dizer: a inventividade, a persistência e a qualidade assustadoras demonstradas nesse álbum foram inspiradoras como nada até então tinha sido para o Ian de 2007, que nem tinha certeza se ainda continuaria tentando uma vida na arte. Lembro da sensação de epifania quando raciocinei que aqueles caras que não deviam mais nada a ninguém acabavam de lançar um dos melhores e mais criativos discos da sua carreira, simplesmente pelo ímpeto de fazê-lo, já que certamente não era de mais sucesso ou dinheiro que eles precisavam. Eles precisavam era de mais boas idéias – mais música – e dalí eu concluí que eu também.


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Caetano Veloso - Muito (Dentro da Estrela Azulada) [1978]


  Queria ter tido menos dificuldade para selecionar "Muito (Dentro da Estrela Azulada)" do Caetano Veloso para esta conversa, mas é difícil eleger um único disco para ilustrar o que quero dizer a respeito do Caetano, e o que quero dizer é na verdade muito simples. Meu interesse por música brasileira sempre foi genuíno e, embora a minha geração não estivesse com os ouvidos muito voltados pra cá, meu contato com a obra do Caetano vem de longe e devo isso ao meu pai, que diferente dos mais novos sempre enxergou nele a ponta da vanguarda e por isso jogava na minha frente coisas como o "Transa" [1972] desde a infância. Cresci, portanto, com essa idéia de que ele era o moderno, e que bom que até hoje acho isso. Posso dizer que foi por causa do Caetano que aflorou em mim a vontade de cantar em português, e, mais do que isso, sua obra foi pra mim como que uma lente de aumento nos detalhes mais profundos e tocantes da estupendamente rica música brasileira, diluídos em menor e maior grau no monumento das canções que ele provia do cimento da colagem contemporânea, pensando no futuro enquanto regravava coisas como "Coração Materno", e é engraçado que pouca gente que eu conheço o enxergue dessa forma, pra mim tão nítida. Por si só, essa contribuição específica bastaria para que eu o citasse sem erro, mas acima disso ele é mesmo musicalmente e liricamente o meu maior ídolo.
  Esse disco de 1978 nem sempre é lembrado dentro da sua discografia quando ofuscado por outros colossos como "Transa" ou "Cinema Transcendental" [1979], mas nele estão clássicos inesgotáveis como "Terra", "Muito Romântico", "Muito" e "Sampa" entre outras coisas lindas. Costumo brincar com os amigos de banda perguntando como é que alguém entendia a cidade de São Paulo antes da existência de "Sampa", que por sua vez parece que sempre existiu. Como se a canção precedesse a verdade ali descrita e fosse mais fácil acreditar nessa ideia absurda do que na realidade da capacidade de observação tão delicada e poderosa do Caetano - o olho transparente de um gênio. É um discaço e tem que ser ouvido junto com tudo que esse cara fez.

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Miles Davis -  Sketches of Spain [1960]

  Deve ter dado pra perceber que tudo que cito tem algum vínculo com exploração estética no sentido do rompimento, por conta disso ser tão estimulante e tão decisivo no entendimento que tenho de música em geral, e para fechar com coerência tenho que citar o "Sketches of Spain" do Miles Davis. 
  Num ano mais do que inspirado (1959), não bastasse o Miles gravar aquele que muitos consideram o maior disco do que chamam jazz (e mais especificamente cool jazz) de todos os tempos, "Kind of Blue" [1959], decidiu também jogar-se na incursão estilística que é o disco que escolhi, que só seria lançado no ano seguinte. Lembro que depois de conhecer o Miles superficialmente fui atrás do "Kind of Blue" e eu já estava vendido antes de ouvir, logo na sequência, aquele que, dos seus discos, mais me marcou, e que me fez ver imediatamente com outros olhos tudo aquilo que eu já conhecia não só do mesmo artista, mas de toda uma vertente. O disco é simultaneamente como que um reforço e uma negação ao estilo que ele mesmo ajudou a solidificar até então, instrumentalizado para tratar de temas harmônicos e melódicos com uma pegada espanhola, assim por dizer. "Concierto de Aranjuez", do Rodrigo, abre o disco com tanta elegância, sofisticação, abstracionismo e pungência sonora que vou me limitar a essas quatro qualidades para descrever menos injustamente esta obra-prima. Gosto de quase tudo do Miles, mas considero seguro dizer que neste disco fundem-se na melhor das químicas o seu apuro musical quase erudito e a sua violenta gana pela inovação.

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  Já demorado mais do que deveria, agradeço a chance de lembrar desses discos e deixo um abraço a todos que escrevem e leem o Bota Pra Tocar!

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  Gostaram das indicações do Ian Fonseca? Deixem seus comentários, e continuem ligados aqui no Bota Pra Tocar! para as novas indicações da série "3 álbuns com...". Vocês podem se surpreender com o que vem por ai, e  acabar descobrindo uma nova banda preferida!
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